4 de janeiro de 2011

A arte de ser louco

E depois de algumas vodcas começa um acalorado debate entre eles:
_Você já tem 31 anos, mas seu comportamento é de um adolescente, diz o racional.


O passional de imediato retruca: Seu sonho é ser igual a mim, se vestir como jovem, se sentir jovem, brincar com a aparência.
Vendo que o passional ficou alterado, o racional provocou. _E essa mulher que estava aqui hein, dona de si, inteligente, raciocínio rápido, nunca ia querer algo com você. Ela te vê e te trata como um eterno estagiáriozinho.
_Que estagiário o que mané, sou um jornalista diplomadooo
, gritou ele para logo em seguida abaixar o tom de voz: _Sou formado pela Univap, mas sou, e isso não importa, sou muito homem pra ela e pra qualquer outra se interessar por mim, sei exatamente o que ela quer, diz o passional, que completa:
_E digo mais, nem sei se quero algo com ela. Ela é sim, interessante e agradável, mas é bem complicada, fechada, misteriosa e um pouco marrenta demais.
Depois de alguns segundos de silêncio, o passional fala. _E você, se achando velho, desinteressante. Pensa que ser sério é ser bonito? Ela se atraiu pelo meu estilo irreverente, minhas opiniões ousadas. Ela tem um lado igual ao meu, apenas o deixa escondido a maior parte do tempo.
O passional reflete, pensa em algo para contra-atacar, mas se cala. Aquela mulher mexeu com o psicológico de ambos. Ela é diferente, parece não se desestabilizar por nada.
Às vezes um olhar tão penetrante quanto um voluptuoso adolescente, às vezes enamorada da distância, numa frieza que causaria inveja até ao Fred de Passione.
No começo, parecia uma entrevista de emprego. Um clima estranho, tenso. Depois de um tempo, aí sim, algo amistoso, bem humorado. Diria que em alguns momentos, até a química, tão esquecida desde os tempos da tabela periódica, deu o seu ar da graça. Não levou a física, companheira fiel de uma noite perfeita, mas pra algo esperado por três anos... foi satisfatório.
Quatro vodcas depois, frio e sono se instalando sem convite, o garçom é chamado e como sempre, faz seu comentário intrometido.
_Veio sozinho hoje? Te vejo sempre bem acompanhado, mas hoje passou a noite toda com um ar de pensativo, até estranhei.
_É, resolvi colocar a cabeça no lugar. Num rompante de insanidade cheguei a pensar que estava batendo papo, e pior, discutindo comigo mesmo..deve ser a vodca...

Um comentário:

Jornalisticamente falando... disse...

É "vodka".Em russo, во́дка; em polonês, wódka.